quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Lá vem o Helaehil / descendo a ladeira"

Eu lembro a primeira vez que eu desci aquela ladeira. Lembro como se fosse agora. Os olhos vidrados de medo, os ouvidos lotados de vento e um sorriso peito afora.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Desejo II

Se eu pudesse pedir algo pra Deus, - se é mesmo que ele existe -
pediria pra ser num dia alegre
e no outro um pouquinho triste.

domingo, 5 de abril de 2009

TÍTULO-PIADA SUPRIMIDO PELO BOM SENSO

E se do alto dos meus 1,71m – medido com um generoso acréscimo por algum cabo raso no dia do alistamento militar – eu estivesse lá? Eu faria alguma coisa? Tentaria, como sempre tento, transformar a situação, desconfortabilíssima, em alguma piada para pôr fim ao assunto?

Tom migável e meio sorriso no rosto, respiro fundo e lá vai.

Porque, sabe, não é fácil reagir. Não é fácil gritar e ser ofensivo com quem quer que seja – eu, pelo menos, não consigo ser assim. Então, com a minha mania de defensor dos oprimidos, me sobra a piada. Só.

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Em tempo: sou ótimo romancista da minha vida - sempre perco horas de sono imaginando "o que eu faria se...?" nas mais exdrúxulas situações.

quarta-feira, 25 de março de 2009

La Estrella

Já vi flores de todas as cores brotando do desejo escondido e ganhando o espaço do meu peito de aço pelas horas de um sono perdido. Tenho pouco dormindo, apesar do cansaço, roubando meus sonhos guardados e sonhando assim, acordado – às vezes é tão real que até acredito.

Dia ou outro vem a Aurora e me manda embora, pra fora daquela toda lucidez. Mas eu, insensato, não ouço, disfarço e perco minha noite pela milésima vez. Copos de café e a carreira me salva a carreira. Encaro embalado um prazo apertado – até me pegar divagando em besteira.

Já provei os mais doces licores dos quais os sabores não sei transcrever; já provei das mais puras cachaças, das canas, do açúcar, das bocas ardentes; do céu, do inverno, verão de gravata, da puta, da louca, da esposa e da casta.

Já fui tanto que me sinto pouco.

- Sou tão pouco que eu mal me basto.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Z!

Fui-me embora para os sonhos embalado por um fino – vá, minha vida, acelere feito um louco desatino. Livre, enfim, de suas rédeas – minhas pálpebras abertas – vá minha vida, pule e role e se enrole de incertezas.

- Pois o certo não me basta, só me arrasta ao sufoco. De carbonoparadoxo: se estou lúcido, estou louco.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cartas para o velho continente - 1ª parte

[Começar uma carta sempre foi um problema para mim. Acredite ou não, para escrever somente esta primeira frase, demorei uns bons dez minutos. Hum, assim não ficou bom. E se eu mudar a ordem… não, não, piorou. Talvez se eu perguntar logo de cara como ela está. Estranho, parece um tanto vazio. E agora?

De tão importante, o começo sempre se mostra mais difícil do que a gente espera. Lembro que nos meus 6 ou 7 anos, a professora de português queria nos ensinar a escrever uma carta. Em um sorteio, peguei o nome de uma menina que nunca tinha falado na vida. Sim, a frase soa ambígua mas é isso mesmo: além de mal conhecer a garota, ela tinha uma doença e era muda.

Infelizmente, não sabia qualquer palavrão na ocasião. Caso contrário, teria questionado a professora como caralho eu começo a escrever uma carta pra alguém que eu nunca falei na vida e que não consegue me dizer nada.

Ainda bem que a sinceridade de criança sempre vem acompanhada de uma inocência imensurável. Então, tudo o que fiz foi encarar a folha de almaço por meia hora sem achar palavra alguma que coubesse ali. A professora avisou que tínhamos mais quinze minutos. Envergonhado de dizer que não tinha escrito nada e apavorado por ter que fazer alguma coisa, botei no papel a primeira frase que me veio na cabeça.

Bianca,

Nunca ouvi sua voz, mas sei que, se você pudesse falar, ela seria linda.


No tempo que me restava, fiz o que era possível para um garoto de 7 anos. A professora passou recolhendo, o barulho dos pesados tamancos ecoando pela sala. Pega a folha, lê o começo, guarda no fichário e anda até o próximo aluno. De novo. E de novo. E mais uma vez, agora com um elogio para algum futuro médico ou engenheiro.

Movimentos compassados, o tamanco vem batendo no taco e, adivinhem, descompassa em mim. Acho melhor você mudar o começo e me entregar amanhã, Gustavo, sussurra. Sim, senhora. Em casa, minha mãe me explica que eu devia ser mais delicado. Bobeira, é claro que não entendi na época. Para falar a verdade, ainda hoje acho que este foi o melhor começo de carta que já escrevi. Aliás, com algumas mudanças, é perfeito para esta ocasião.

Então, que assim o seja.]

Há meses que não ouço sua voz, quase uma eternidade. Mesmo assim, lembro perfeitamente como ela é linda - aquela timidez escondida, quase suprimida pela mulher que quer dar vazão às próprias opiniões, sublime como a de alguém que não carrega maldade.

Sabe, ao menos nos meus sonhos, ainda consigo te ouvir.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Cadeia

Acontece que alguns dias são especiais sem porquê, Pedro, e vêm sem dizer que o são. Lá quando o Sol desponta, nenhuma data especial no calendário. Não é feriado, não é seu aniversário, nada; é só um dia normal.

Então, no elevador, dois espelhos se encaram e mostram, Pedro, infinitos vocês. Forçando os olhos, o último que consegue ver, lá atrás, sussurra que tem muito caminho pela frente, não se deixe enganar. E, no banheiro, uma aranha lhe planta um susto enquanto escova os dentes: é, o coração acelerado e adrenalina pelas veias. Como um susto te faz tão bem?, - você se indaga. É porque me sinto vivo.

E o dia já valeria a pena, Pedro, só por estes dois fatos tão banais. Mas tem mais. Amigos, cervejas e aguardente, ardente mesmo. Tão quente que incendeia os ânimos do casal - ele chora o que não é, ela argumenta o que não faz. Como amigo, de paz, você fala com os dois e se vê no lugar de cada um anos atrás.

Nunca mais sofro de amor até findar-se o nunca mais.

Boa noite, Pedro.